quinta-feira, 31 de agosto de 2017

GPS

Um dia quis ter endereço em teu abraço
Mas ei, coração, não vá por aí!
De pernas cansadas, andando eu reparo
Meu amor já não está
Parou no semáforo, virou a esquina
Olhei para os lados, nada vi
Atravessei só, mãos vazias
Onde esteve tua mão, teu abraço?

Olho no mapa o ponto marcado
Na rota, o traço
Guiando a direção para o teu abraço
Caminho traçado, pés descalços
Sigo à risco, olhando pra baixo

Que é para não me perder
Fixei o destino em você

O traço como feito mostra caminho errado
No engano cego da rota traçada
Me perdi, nem deixei migalhas

Se corri e tomei atalhos para o endereço do teu abraço
Não reparei as flores no caminho
Perdi o traço diário no traço já feito
Não reparei que teu abraço fechava
E os olhos distantes já não me esperavam
Não reparei que no caminho para o teu abraço
Já tinha eu teus braços em mim.

quinta-feira, 18 de maio de 2017

Minha voz te ouve

Minha voz nasce nos ouvidos
Se ouço árvores, canto passarinhos
Se ouço o rio, minha voz escoa rios
Se ouço o pôr-do-sol, minha voz se põe
vermelho-alaranjada
Se ouço as montanhas, ecoo vales
E se ouço a pedra, converso com o seu silêncio.
Eu falo a língua dos meus ouvidos.

para Manoel de Barros.

Rio de janeiro, 21 de fevereiro de 2017.

terça-feira, 4 de abril de 2017

gozado céu



então que virei de barriga pra cima
no escuro do teto do quarto havia ali o próprio céu
salpicado de estrelas, onde quer que eu olhasse
incontáveis pontinhos fluorescentes iluminavam
um tecido de dimensões infinitas pairando sobre mim
e me veste a noite...
me venda o céu em suas estrelas
me cometo cadente
me estrelo noite em seu véu
me cobre na clareza do breu
me meteora na sua chuva
até que me anoiteço estrelada na cama
com o brilho do teu céu, me nebulosa
suavemente contra a lua pele
desaluada, desescureço de estrelas