Tereza estava tão estressada desde a invasão à sua residência no mês anterior que estar com os amigos era um verdadeiro respiro, um alívio em meio a tanta desconfiança que sentia nos seus dias. Haver se mudado para outra casa já lhe dava alguma paz, mas o constante estado de alerta e suspeita ainda não passava. Fitava as pessoas na rua buscando encontrar nelas seus pertences roubados na invasão - relógio, bolsa, mochila, câmera!
Sentia-se à vontade caminhando com os amigos pela rua, mas a sensação ainda estava lá. O trauma talvez não fosse embora nunca mais, contudo, a fazia sentir-se mais forte e preparada para o que viesse. Na rua podia esperar-se por tudo.
O viaduto aonde Tomás os levava para assistir ao espetáculo era a cinco quadras de distância da alameda central. A rua estava silenciosa como sempre, com alguns pequenos grupos que não chegavam a cinco pessoas cada. Contava-se um grupo por quadra, mais ou menos, e estavam distanciados como deveriam.
Tereza lembrou que fazia três anos do decreto do Ministério Sanitário que permitia às pessoas com relacionamento continuado poderem ter a proximidade e a intimidade que desejassem, desde que se encontrassem até uma vez por mês. E assim fazia com os amigos...
Tereza teve suas divagações interrompidas quando ouviu um grito rápido e desesperado. Os amigos rapidamente reagiram atirando-se contra a parede na calçada por onde caminhavam. Estavam todos de mãos dadas, silenciosos e apavorados. Olharam ao redor mas não viram nada. Vozes se aproximavam, falando entrecortado uma por cima da outra.
Então que na esquina surge um casal rindo, ele fazendo cócegas nela e ela solta mais um grito. Os amigos relaxaram os ombros e respiraram aliviados. Tereza baixou a máscara de seu nariz e boca e respirou fundo mais uma vez.