quarta-feira, 18 de março de 2020

VINTE E SETE

Aos vinte e sete! 
Meus e que virão 
E nossos 
A tudo que já não me serve 
Um novo caminho de chão 
Só 

Caminho meu que passo por passo 
Passo memórias e histórias 
E agoras 

Vou ligeira na bagagem que me faço 
Pés e rastro
Não me atraso

Deixo ir, deixo ficar 
Sendo do que fui, abro espaço 
Aso, voo alço 

Mala sem alça não arrasto 
Pegadas só dos passos 
Às vezes fundos pesados 
E vezes suaves rápidos 

27 anos de muitas de mim 
Espero a crise que anunciam a chegada 
Duas décadas foram de revolução 
Em constante movimento me refaço 

Terra, chão
Voo, asa 
Estrada 

O caminho é solitário
Sempre fui 
Companhias em pousadas 
Alguns percursos de mãos dadas

A coisa é que hoje apaixonada 
Vida arretada 
Minha paixão de solidão
Se vê mudada 

Essa é a crise: 
Como posso não ser só? 

Uma barriga come menos do que duas 
Quatro mãos fazem mais
Tão bem, cafuné abraço 

Procuro um canto que me caiba 
Meu voo e melodia 
Passarinho passa o pranto
Com seu canto 
Poesia 
Seca e engoma a melancolia 

Cantoria 
Um chêro no cangote do amado 
Um beijo na mão da dama arredia 
Solidão 
Velha amiga, de pouca companhia 

Angustia minha goela 
Grito seco na multidão 
Ricochete eco 
Cacoete solidão 

Infindável revolução 
Ser com 
Consciência e amor 
Partilha e calor 
Abraço encontro 
Fiar com 

Rio de Janeiro, 31 de outubro de 2018.

domingo, 15 de março de 2020

A MENINA E O RIO

Essa é a história de uma menina que não se banhava no rio porque tinha medo de uma luz muito, muito forte que se refletia na superfície das águas. Ela tinha medo de chegar perto e ficar cega por completo ou até mesmo morrer com tamanha intensidade que aquela luz brilhava. 

Um dia ela ficou olhando o rio, de longe, em cima de uma árvore, entre as folhagens, olhando o rio e sua luz intensa que refletia na superfície das águas. E ela ficou horas ali protegida nas folhas só olhando o rio e a luz, olhando, olhando. As horas foram passando e ela viu a luz diminuindo, diminuindo, ficando mais morna, mais suave. Até que de repente a luz tocou o rio e então ele todo ficou como fogo dourado e pintou o céu de laranja.
Maravilhada com a beleza mágica daquele momento, a menina não sentiu mais medo. Aquela luz não podia ser tão assustadora assim, quando as águas do rio a recebiam toda morna, calma, branda. Ela entendeu que se toda a superfície do rio tomava daquela luz, afinal, ela também poderia!

Em um instante ela começou a ter vontade de descer correndo da árvore e ir à beira do rio tocar as águas de sol morno que via, mas era já hora de ir pra casa e se reunir com a família. Desceu a árvore e foi pensando enquanto ouvia o chamado de sua mãe e sua avó. Olhando para as estrelas que começavam a aparecer, foi pensando no novo calor da luz que ela conhecera. 

De volta à casa ela perguntou à avó por que o rio ficava tão dourado quando o sol mergulhava nele. E a avó lhe respondeu que essa era a cauda dele que a gente podia ver quando ele estava indo embora para casa. Porque depois de ficar o dia inteiro brilhando e ardendo, ele também quer descansar, voltar para casa e abraçar a família dele. “É um presente então, minha avó!” diz a menina. A avó ri “É, minha filha, o presente é ele inteiro que se mostra para nós”. A noite se seguiu de reencontros e partilhas e cantorias à beira do fogo e, em determinada hora, a menina adormeceu no colo da avó ouvindo suas histórias sobre o sol e o rio. 

Quando acordou em sua rede, com o sol nascendo laranja, lhe deu bom dia em alegria e admiração à nudez com que ele se mostrava também quando chegava. Foi correndo ao rio para vê-lo chegando, e quando aquela sua luz foi ficando forte e ardente, viu-a refletida nas águas do rio, mas não a olhou diretamente. Olhou à beira do rio, claro e transparente, e viu não só seu fundo, mas também a si mesma refletida nas águas. Sorriu e mergulhou. 

Rio de Janeiro, agosto de 2018.

segunda-feira, 9 de março de 2020

O DIQUE E O TIGRE

Sou eu o próprio dique. Tornei-me o próprio dique. Se ele romper, o que faço? Eu rompo junto. O que fica, o que sou? Eu sou. Apenas. 

Atenção à explosão. Não é destruição, mas criação. Vida, amor. Muita atenção. Muita presença, não se perca. Não corra, não desvie. Todas as águas são bem-vindas. Todas as águas sou eu. 

Navego. Pulmões cheios. Peito aberto. Corpo e mente. Tudo o que me formou, sou. Reconheço e celebro. Não destruo. Sou eu também. Somos. Todos somos. 

Neste momento que vos digo, o agora, o presente, atual, onde me encontro, sou dique para romper-se. O que faço das minhas águas, te diria se soubesse. Apenas vejam o fenômeno natural. Sem necessidade de espetáculo. Não ovacione, não aplauda. O rompimento é interrompível. Incapturável. Assista, observe. 

Há raiva, há fúria. Que de nenhuma forma são direcionadas a ser ou ente algum. São apenas potência. Tempestade. Trovão. Raio de intensidade. Só para sair do estado de contenção. Chega! 

Rompe-se o dique com a potência das minhas águas. O dique precisa sair. As águas precisam fluir.

em algum momento de 2018