quarta-feira, 10 de agosto de 2022

Gerações

A gente nasce, cresce, deixa herdeiros e às vezes alguma saudade. E as crônicas também. Podem nascer de uma reflexão eminente ou de um pensar distraído. E se fazem na conjunção afetiva de algo que precisamos contar para as pessoas - pelo bem da saúde mental. E se não fosse por essas desimportâncias não haveria história nenhuma para contar.

Um dia desses eu estava saindo do metrô da Uruguaiana, cantarolando uma música que não me saía da cabeça. Passo por um senhor idoso, curvado e lento carregando duas sacolas de mercado. Eu estava entretida no meu cantarolar e só o noto depois de ouvir sua voz fraca
- Que música bonita
Surpresa por ter sido notada, por um instante me pergunto se o velho pensava alto, assim como a letra da música me saía mais alta do que deveria. Decido que é uma oportunidade de interação. Afinal, seria rude deixá-lo falando sozinho. E dizem que os velhos sofrem de solidão.
Diminuo o passo e me viro para olhá-lo.

- Você canta bonito - ele diz antes que eu pudesse encontrar qualquer palavra para quebrar o gelo constrangedor de ter sido surpreendida no meu cantarolar. Provavelmente eu estava pensando algo como "talvez os velhos se façam de surdos só quando querem". O que não seria produtivo e nem respeitoso para começar uma conversa.
Decidi ser humilde

- Muito obrigada, é generosidade sua... posso carregar uma de suas sacolas para o sr.?

- Não, não... Já estou chegando... Continua cantando, quero ouvir o resto da música.

O velho me surpreende e fico entre o acanhamento e o estrelato pelo palco que me foi aberto bem ali. Continuamos a caminhar em seu ritmo enquanto vou cantando o restante da música. Termino a letra antes de terminar a quadra e ele suspende o passo.

- Muito obrigado pela música e pela atenção.

- Imagina, eu que agradeço pela atenção. Foi bom ter cantado para o sr.

- Vou te ver novamente?

- Bom... eu passo por aqui todo dia como esse, a toda hora como essa... Quem sabe?

Eu não tinha a mínima ideia do que responder. Não chegamos em lugar nenhum e nos despedimos ali na calçada. Dois desconhecidos que se percebem ao acaso na saída do metrô, com duas gerações de distância entre eles. E duas coisas em comum: o apreço pelas desimportâncias da vida e a solidão.

(Essa crônica nasceu de algumas caminhadas e se fez na Oficina de Crônica com Flávio Carneiro no Festival de Inverno do Sesc em Teresópolis.)

sábado, 1 de janeiro de 2022

Mais um dia qualquer - parte VI

 Os encontros, em ambientes abertos e públicos, deveriam ser agendados na plataforma do Ministério Sanitário, cada grupo de pessoas tinha seu dia fixo de todo mês para poder encontrar-se presencialmente. E ali estavam Tereza e os amigos em seu dia glorioso. 

Acontecia que nas residências só era permitido até dois adultos e uma criança por unidade familiar. Limitava-se a um pet por unidade doméstica e era proibido receber visitas.

Se fosse o caso de iniciar um relacionamento, só poderia ser feito após três encontros mensais exclusivos e quando os dados das normas de controle epidemiológico estivessem em ordem e o ministério sanitário autorizasse a união.

Quando os jovens faziam dezesseis anos, deveriam mudar-se caso sua família já atingisse o limite de dois adultos por residência. Nesses casos, os jovens já saíam de casa para morar sozinhos e assim iniciavam suas vidas. Havia muitas opções de trabalho, o mercado tinha falta de gente especializada, principalmente no setor da tecnologia da informação. Desde crianças, esses jovens já eram treinados para um trabalho e preparados para viverem sozinhos. 

Com Tereza e seus amigos foi assim. Hoje com seus vinte, vinte e um anos, tinham emprego e vida estável. Lu e Gui eram programadores e Tomás era analista de conteúdo na TvTube. Diana era a exceção, teve que sair de casa quando a pandemia estourou e o novo governo de controle epidemiológico foi instaurado. Ela tinha vinte e três anos quando tudo aconteceu e levou consigo sua filha Manu, com então cinco anos de idade. Conseguiram se adaptar ao novo contexto porque o seu programa de comédia “Histórias de uma Vida Privada” não demorou a ser transmitido na TvTube, chegando rapidamente ao milhão de inscritos. Manu estava seguindo o seu legado.

Tereza olhou para Diana nesse momento, admirava muito sua amiga. Olhou para os amigos e sentia o peito apertado ainda do susto que levaram. Ficou apreensiva, lembrando daquela ideia, lá no fundo da consciência, de que havia um grupo de pessoas na sociedade totalmente à margem, não noticiados, invisíveis. Se fossem reais, como viviam? Com que trabalhavam? Como sobreviveram à grande pandemia?

segunda-feira, 4 de maio de 2020

Mais Um Dia Qualquer - parte V

    Tereza estava tão estressada desde a invasão à sua residência no mês anterior que estar com os amigos era um verdadeiro respiro, um alívio em meio a tanta desconfiança que sentia nos seus dias. Haver se mudado para outra casa já lhe dava alguma paz, mas o constante estado de alerta e suspeita ainda não passava. Fitava as pessoas na rua buscando encontrar nelas seus pertences roubados na invasão - relógio, bolsa, mochila, câmera!

    Sentia-se à vontade caminhando com os amigos pela rua, mas a sensação ainda estava lá. O trauma talvez não fosse embora nunca mais, contudo, a fazia sentir-se mais forte e preparada para o que viesse. Na rua podia esperar-se por tudo.

    O viaduto aonde Tomás os levava para assistir ao espetáculo era a cinco quadras de distância da alameda central. A rua estava silenciosa como sempre, com alguns pequenos grupos que não chegavam a cinco pessoas cada. Contava-se um grupo por quadra, mais ou menos, e estavam distanciados como deveriam.

    Tereza lembrou que fazia três anos do decreto do Ministério Sanitário que permitia às pessoas com relacionamento continuado poderem ter a proximidade e a intimidade que desejassem, desde que se encontrassem até uma vez por mês. E assim fazia com os amigos...

    Tereza teve suas divagações interrompidas quando ouviu um grito rápido e desesperado. Os amigos rapidamente reagiram atirando-se contra a parede na calçada por onde caminhavam. Estavam todos de mãos dadas, silenciosos e apavorados. Olharam ao redor mas não viram nada. Vozes se aproximavam, falando entrecortado uma por cima da outra.

    Então que na esquina surge um casal rindo, ele fazendo cócegas nela e ela solta mais um grito. Os amigos relaxaram os ombros e respiraram aliviados. Tereza baixou a máscara de seu nariz e boca e respirou fundo mais uma vez.

segunda-feira, 6 de abril de 2020

Mais Um Dia Qualquer - Parte IV

   É tão bom jantar com os amigos. Tereza dormiu com um sorriso no rosto e acordou com os primeiros raios do sol entrando pela janela. Saiu de casa logo depois do almoço, deixou água, comida e a DogTV ligada para Lila, e foi encontrar seus amigos na Alameda Central. 
   Chegando no parque, avistou Tomás sentado no banco mais perto da esquina, embaixo de uma árvore. 
   – Tomás! Gritou animada. 
   – Oi Tê, que bom te ver, como tá?! – respondeu ele com a mesma animação e se cumprimentaram com a dança dos pulinhos batendo os pés um do outro. 
   – Que bom esse sol né, tudo que a gente precisava! Então, me fala mais do espetáculo que vamos assistir hoje, onde vai ser? 
   – Olha eles lá! – chegavam Lu, Gui e Diana atravessando a rua ao encontro dos dois. 
   – Finalmente reunidos! – festejou Tomás 
   – Poxa, cadê Manu?! – perguntou Tereza levantando os braços e se preparando para a dancinha. 
   – Ah, sempre tiramos os mesmos dias no rodízio. E essa era a vez de ela sair com seus amigos do circo. No próximo mês saímos juntas! 
   Então todos reunidos em um círculo fizeram a dancinha coletiva de cumprimentos. 
   – E aí, pessoal, preparados? – Tomás era ator e músico e produzia espetáculos itinerantes na cidade: de uma janela, de um viaduto, estava sempre inventando uma forma viável para manter a cena ativa - e a rua viva. 
  Gui esfregando uma mão na outra, entra na animação do grupo. 
  – Vambora, gente! Conta pra nós, Tomás! 
  – Qual é a produção da vez? Olha lá onde você vai meter a gente eim... – Lu riu de excitação, mas também de nervosa. 

   A cada mês que os amigos saíam juntos, gostavam de aproveitar o ar livre e a alma das ruas. Eram todos muito jovens quando bateu a pandemia e apenas tinham memórias da rua como um lugar para brincar. Ainda assim, sabiam que era um mundo desconhecido, completamente imprevisível e potencialmente perigoso. Os jornais não noticiavam o que acontecia, evitava-se tocar no assunto e o que se sabia eram lendas urbanas. Como a história de que existiam pessoas vivendo fora do mapa, no submundo, em cantos esquecidos da cidade, sem nenhuma regulação do Ministério Sanitário - ou qualquer outro ministério. 

Mais Um Dia Qualquer - Parte III

   Uma das melhores coisas do trabalho de Tereza eram os descontos que recebia nos produtos do supermercado. E ainda tinha assinatura-alimentação para funcionários e não se preocupava com nada mais para ter comida em casa. Pegou o salmão no freezer e o arroz arbóreo na despensa. Decidiu que iria cozinhar um salmão selado com chili-teriyaki e risoto de castanha-do-pará – tudo produto por fora da assinatura, afinal era uma ocasião especial, por mais que lhe tomasse um quinto do seu salário. 
   Com a comida já pronta, desceu com a Lila para passear, na volta tomou banho e pôs a mesa para o jantar. O prato à sua frente, o computador detrás do prato, uma vela ao lado para dar a iluminação certa. Ao fundo, seguia tocando sua playlist preferida enquanto esperava todos chegarem na tela para o jantar... “linda, te sinto mais bela...” 

   Foram chegando um a um, seus amigos. A Lu e o Gui foram os primeiros, chegaram juntos no mesmo vídeo. 
   – Oi, seus lindos! Como foi o dia? 
   – Oi Tê! – responderam os dois acenando – O de sempre, estamos trabalhando muito no aplicativo, ele está sendo um sucesso! Cada vez uma atualização nova e está movimentando muito a vida das pessoas! – disse Lu, Gui acenou com a cabeça. Lu e Gui eram programadores e desenvolvedores do app “Lá Pra Casa” que promovia artistas que estavam produzindo conteúdo on-line. 
   Diana chegou logo depois, inquieta e se desculpando pelo atraso. 
   – Ai gente, que coisa! Cheguei, me desculpem o atraso, estava preparando o jantar com a Manu, discutimos por conta dos ingredientes e ela se fechou no quarto... adolescentes, quem sabe ela vem dar um oi pra vocês daqui a pouquinho... Mas me contem, como vocês estão, que tal seus dias?  – Manu tinha uma personalidade forte igual à da mãe, seus embates eram bem conhecidos e acompanhados pelo grupo de amigos. As duas eram uma excelente dupla de palhaças em seu canal na TvTube. 
   Antes que alguém pudesse responder, Tomás logou em alto astral.
   – E aí, galera!?

Mais Um Dia Qualquer - Parte II

   Tereza trabalha para uma rede de supermercados na seção de entregas por aplicativo. Trabalha pelo computador e todo dia bate o ponto através da versão do aplicativo para funcionários. Sua função é fiscalizar e garantir o seguimento das normas sanitárias. Analisa os dados enviados pela central de entregas e produz relatórios informativos para os clientes e funcionários. Quando alguém se desvencilhava das rotinas de higienização, deve notificá-los. 
   A tarefa do dia era exatamente essa: observar os dados das interações entre as pessoas nas entregas e notificar os funcionários e clientes o mais prontamente possível. Não era permitida aproximação menor que três metros entre as pessoas. E quando o entregador levava as compras à casa dos clientes, deveria deixá-las na porta, tocar a campainha – após limpar as mãos com álcool, claro – e sair. Assim, contados cinco segundos de sua saída, os clientes podiam recolher as compras, após espirrar spray antisséptico sobre elas, e levá-las para dentro de casa. Era um ritual bastante preciso, e que servia para todas as interações entre as pessoas que não tivessem um grau aproximado e continuado de relacionamento. 
   Tereza sabia muito bem disso e, por segurança, mantinha em sua vida – até agora – quatro amigos, pois as autoridades orientavam às pessoas que se reunissem em um número máximo de seis. Por parte de sua família, como eram apenas em três, seus encontros não lhe causavam ansiedade – com exceção aos comentários impertinentes de sua mãe. 

  Chegando ao fim do dia, Tereza começou a ficar ansiosa e acelerou para terminar seu último relatório. Era sexta-feira, noite de jantar por vídeo com os amigos e iriam combinar o próximo encontro presencial entre eles! Aquele tipo de encontro próximo, com abraços e que as pessoas falam perto uma das outras, bebem e comem juntas, ouvindo música e tocando instrumentos. Faziam isso uma vez por mês, era um momento sagrado. E esse estava marcado para o dia seguinte! 
   No computador, fechou o sistema do supermercado e colocou uma música para tocar. "Já que é pra tombar, tombei... bem bem!" Levantou-se dançando e cantando com a versão jazz da sua música favorita nos últimos anos e foi à cozinha decidir o que iria preparar para seu jantar com os amigos... "bau bau bauêê!".

Mais Um Dia Qualquer - Parte I

   15 de março de 2984. 

   Tereza caminha assustada de volta para casa. Olha ao seu redor, move o pescoço em movimentos curtos e rápidos para dar conta do perímetro, a ameaça está por todos os lados, em qualquer parte. Lila, presa à coleira logo à sua frente, parece alheia ao perigo, andando como se estivesse dando pulinhos de alegria. 
   Se o problema fosse só o vírus, nada mal. Com a rua deserta do jeito como costumava ser, uma pessoa que aparecesse deixava o coração à mil e os pelos da nuca em pé. E se fosse um homem então... Tereza não gostava nem de pensar. Passeava com Lila o mais rápido que podia, duas vezes por dia, na calçada em frente ao prédio em que morava. 
   A rua era sempre mais fria do que lembrava desde a grande pandemia. Não havia pessoas, não havia encontros, não havia calor. Toda vez que saía pela porta do prédio, se arrependia de não ter pegado também seu cachecol. Em compensação, as condições climáticas estavam se estabilizando ao redor do mundo, ria ao pensar tal ironia. 
   Tereza chega ao hall do seu prédio, fecha a porta atrás de si e respira fundo em alívio. Era de amanhã e o dia ainda estava para começar.