sábado, 1 de janeiro de 2022

Mais um dia qualquer - parte VI

 Os encontros, em ambientes abertos e públicos, deveriam ser agendados na plataforma do Ministério Sanitário, cada grupo de pessoas tinha seu dia fixo de todo mês para poder encontrar-se presencialmente. E ali estavam Tereza e os amigos em seu dia glorioso. 

Acontecia que nas residências só era permitido até dois adultos e uma criança por unidade familiar. Limitava-se a um pet por unidade doméstica e era proibido receber visitas.

Se fosse o caso de iniciar um relacionamento, só poderia ser feito após três encontros mensais exclusivos e quando os dados das normas de controle epidemiológico estivessem em ordem e o ministério sanitário autorizasse a união.

Quando os jovens faziam dezesseis anos, deveriam mudar-se caso sua família já atingisse o limite de dois adultos por residência. Nesses casos, os jovens já saíam de casa para morar sozinhos e assim iniciavam suas vidas. Havia muitas opções de trabalho, o mercado tinha falta de gente especializada, principalmente no setor da tecnologia da informação. Desde crianças, esses jovens já eram treinados para um trabalho e preparados para viverem sozinhos. 

Com Tereza e seus amigos foi assim. Hoje com seus vinte, vinte e um anos, tinham emprego e vida estável. Lu e Gui eram programadores e Tomás era analista de conteúdo na TvTube. Diana era a exceção, teve que sair de casa quando a pandemia estourou e o novo governo de controle epidemiológico foi instaurado. Ela tinha vinte e três anos quando tudo aconteceu e levou consigo sua filha Manu, com então cinco anos de idade. Conseguiram se adaptar ao novo contexto porque o seu programa de comédia “Histórias de uma Vida Privada” não demorou a ser transmitido na TvTube, chegando rapidamente ao milhão de inscritos. Manu estava seguindo o seu legado.

Tereza olhou para Diana nesse momento, admirava muito sua amiga. Olhou para os amigos e sentia o peito apertado ainda do susto que levaram. Ficou apreensiva, lembrando daquela ideia, lá no fundo da consciência, de que havia um grupo de pessoas na sociedade totalmente à margem, não noticiados, invisíveis. Se fossem reais, como viviam? Com que trabalhavam? Como sobreviveram à grande pandemia?