segunda-feira, 6 de abril de 2020

Mais Um Dia Qualquer - Parte IV

   É tão bom jantar com os amigos. Tereza dormiu com um sorriso no rosto e acordou com os primeiros raios do sol entrando pela janela. Saiu de casa logo depois do almoço, deixou água, comida e a DogTV ligada para Lila, e foi encontrar seus amigos na Alameda Central. 
   Chegando no parque, avistou Tomás sentado no banco mais perto da esquina, embaixo de uma árvore. 
   – Tomás! Gritou animada. 
   – Oi Tê, que bom te ver, como tá?! – respondeu ele com a mesma animação e se cumprimentaram com a dança dos pulinhos batendo os pés um do outro. 
   – Que bom esse sol né, tudo que a gente precisava! Então, me fala mais do espetáculo que vamos assistir hoje, onde vai ser? 
   – Olha eles lá! – chegavam Lu, Gui e Diana atravessando a rua ao encontro dos dois. 
   – Finalmente reunidos! – festejou Tomás 
   – Poxa, cadê Manu?! – perguntou Tereza levantando os braços e se preparando para a dancinha. 
   – Ah, sempre tiramos os mesmos dias no rodízio. E essa era a vez de ela sair com seus amigos do circo. No próximo mês saímos juntas! 
   Então todos reunidos em um círculo fizeram a dancinha coletiva de cumprimentos. 
   – E aí, pessoal, preparados? – Tomás era ator e músico e produzia espetáculos itinerantes na cidade: de uma janela, de um viaduto, estava sempre inventando uma forma viável para manter a cena ativa - e a rua viva. 
  Gui esfregando uma mão na outra, entra na animação do grupo. 
  – Vambora, gente! Conta pra nós, Tomás! 
  – Qual é a produção da vez? Olha lá onde você vai meter a gente eim... – Lu riu de excitação, mas também de nervosa. 

   A cada mês que os amigos saíam juntos, gostavam de aproveitar o ar livre e a alma das ruas. Eram todos muito jovens quando bateu a pandemia e apenas tinham memórias da rua como um lugar para brincar. Ainda assim, sabiam que era um mundo desconhecido, completamente imprevisível e potencialmente perigoso. Os jornais não noticiavam o que acontecia, evitava-se tocar no assunto e o que se sabia eram lendas urbanas. Como a história de que existiam pessoas vivendo fora do mapa, no submundo, em cantos esquecidos da cidade, sem nenhuma regulação do Ministério Sanitário - ou qualquer outro ministério. 

Mais Um Dia Qualquer - Parte III

   Uma das melhores coisas do trabalho de Tereza eram os descontos que recebia nos produtos do supermercado. E ainda tinha assinatura-alimentação para funcionários e não se preocupava com nada mais para ter comida em casa. Pegou o salmão no freezer e o arroz arbóreo na despensa. Decidiu que iria cozinhar um salmão selado com chili-teriyaki e risoto de castanha-do-pará – tudo produto por fora da assinatura, afinal era uma ocasião especial, por mais que lhe tomasse um quinto do seu salário. 
   Com a comida já pronta, desceu com a Lila para passear, na volta tomou banho e pôs a mesa para o jantar. O prato à sua frente, o computador detrás do prato, uma vela ao lado para dar a iluminação certa. Ao fundo, seguia tocando sua playlist preferida enquanto esperava todos chegarem na tela para o jantar... “linda, te sinto mais bela...” 

   Foram chegando um a um, seus amigos. A Lu e o Gui foram os primeiros, chegaram juntos no mesmo vídeo. 
   – Oi, seus lindos! Como foi o dia? 
   – Oi Tê! – responderam os dois acenando – O de sempre, estamos trabalhando muito no aplicativo, ele está sendo um sucesso! Cada vez uma atualização nova e está movimentando muito a vida das pessoas! – disse Lu, Gui acenou com a cabeça. Lu e Gui eram programadores e desenvolvedores do app “Lá Pra Casa” que promovia artistas que estavam produzindo conteúdo on-line. 
   Diana chegou logo depois, inquieta e se desculpando pelo atraso. 
   – Ai gente, que coisa! Cheguei, me desculpem o atraso, estava preparando o jantar com a Manu, discutimos por conta dos ingredientes e ela se fechou no quarto... adolescentes, quem sabe ela vem dar um oi pra vocês daqui a pouquinho... Mas me contem, como vocês estão, que tal seus dias?  – Manu tinha uma personalidade forte igual à da mãe, seus embates eram bem conhecidos e acompanhados pelo grupo de amigos. As duas eram uma excelente dupla de palhaças em seu canal na TvTube. 
   Antes que alguém pudesse responder, Tomás logou em alto astral.
   – E aí, galera!?

Mais Um Dia Qualquer - Parte II

   Tereza trabalha para uma rede de supermercados na seção de entregas por aplicativo. Trabalha pelo computador e todo dia bate o ponto através da versão do aplicativo para funcionários. Sua função é fiscalizar e garantir o seguimento das normas sanitárias. Analisa os dados enviados pela central de entregas e produz relatórios informativos para os clientes e funcionários. Quando alguém se desvencilhava das rotinas de higienização, deve notificá-los. 
   A tarefa do dia era exatamente essa: observar os dados das interações entre as pessoas nas entregas e notificar os funcionários e clientes o mais prontamente possível. Não era permitida aproximação menor que três metros entre as pessoas. E quando o entregador levava as compras à casa dos clientes, deveria deixá-las na porta, tocar a campainha – após limpar as mãos com álcool, claro – e sair. Assim, contados cinco segundos de sua saída, os clientes podiam recolher as compras, após espirrar spray antisséptico sobre elas, e levá-las para dentro de casa. Era um ritual bastante preciso, e que servia para todas as interações entre as pessoas que não tivessem um grau aproximado e continuado de relacionamento. 
   Tereza sabia muito bem disso e, por segurança, mantinha em sua vida – até agora – quatro amigos, pois as autoridades orientavam às pessoas que se reunissem em um número máximo de seis. Por parte de sua família, como eram apenas em três, seus encontros não lhe causavam ansiedade – com exceção aos comentários impertinentes de sua mãe. 

  Chegando ao fim do dia, Tereza começou a ficar ansiosa e acelerou para terminar seu último relatório. Era sexta-feira, noite de jantar por vídeo com os amigos e iriam combinar o próximo encontro presencial entre eles! Aquele tipo de encontro próximo, com abraços e que as pessoas falam perto uma das outras, bebem e comem juntas, ouvindo música e tocando instrumentos. Faziam isso uma vez por mês, era um momento sagrado. E esse estava marcado para o dia seguinte! 
   No computador, fechou o sistema do supermercado e colocou uma música para tocar. "Já que é pra tombar, tombei... bem bem!" Levantou-se dançando e cantando com a versão jazz da sua música favorita nos últimos anos e foi à cozinha decidir o que iria preparar para seu jantar com os amigos... "bau bau bauêê!".

Mais Um Dia Qualquer - Parte I

   15 de março de 2984. 

   Tereza caminha assustada de volta para casa. Olha ao seu redor, move o pescoço em movimentos curtos e rápidos para dar conta do perímetro, a ameaça está por todos os lados, em qualquer parte. Lila, presa à coleira logo à sua frente, parece alheia ao perigo, andando como se estivesse dando pulinhos de alegria. 
   Se o problema fosse só o vírus, nada mal. Com a rua deserta do jeito como costumava ser, uma pessoa que aparecesse deixava o coração à mil e os pelos da nuca em pé. E se fosse um homem então... Tereza não gostava nem de pensar. Passeava com Lila o mais rápido que podia, duas vezes por dia, na calçada em frente ao prédio em que morava. 
   A rua era sempre mais fria do que lembrava desde a grande pandemia. Não havia pessoas, não havia encontros, não havia calor. Toda vez que saía pela porta do prédio, se arrependia de não ter pegado também seu cachecol. Em compensação, as condições climáticas estavam se estabilizando ao redor do mundo, ria ao pensar tal ironia. 
   Tereza chega ao hall do seu prédio, fecha a porta atrás de si e respira fundo em alívio. Era de amanhã e o dia ainda estava para começar.