Um dia desses eu estava saindo do metrô da Uruguaiana, cantarolando uma música que não me saía da cabeça. Passo por um senhor idoso, curvado e lento carregando duas sacolas de mercado. Eu estava entretida no meu cantarolar e só o noto depois de ouvir sua voz fraca
- Que música bonita
Surpresa por ter sido notada, por um instante me pergunto se o velho pensava alto, assim como a letra da música me saía mais alta do que deveria. Decido que é uma oportunidade de interação. Afinal, seria rude deixá-lo falando sozinho. E dizem que os velhos sofrem de solidão.
- Você canta bonito - ele diz antes que eu pudesse encontrar qualquer palavra para quebrar o gelo constrangedor de ter sido surpreendida no meu cantarolar. Provavelmente eu estava pensando algo como "talvez os velhos se façam de surdos só quando querem". O que não seria produtivo e nem respeitoso para começar uma conversa.
- Muito obrigada, é generosidade sua... posso carregar uma de suas sacolas para o sr.?
- Não, não... Já estou chegando... Continua cantando, quero ouvir o resto da música.
O velho me surpreende e fico entre o acanhamento e o estrelato pelo palco que me foi aberto bem ali. Continuamos a caminhar em seu ritmo enquanto vou cantando o restante da música. Termino a letra antes de terminar a quadra e ele suspende o passo.
- Muito obrigado pela música e pela atenção.
- Imagina, eu que agradeço pela atenção. Foi bom ter cantado para o sr.
- Vou te ver novamente?
- Bom... eu passo por aqui todo dia como esse, a toda hora como essa... Quem sabe?
Eu não tinha a mínima ideia do que responder. Não chegamos em lugar nenhum e nos despedimos ali na calçada. Dois desconhecidos que se percebem ao acaso na saída do metrô, com duas gerações de distância entre eles. E duas coisas em comum: o apreço pelas desimportâncias da vida e a solidão.
(Essa crônica nasceu de algumas caminhadas e se fez na Oficina de Crônica com Flávio Carneiro no Festival de Inverno do Sesc em Teresópolis.)