segunda-feira, 6 de abril de 2020

Mais Um Dia Qualquer - Parte II

   Tereza trabalha para uma rede de supermercados na seção de entregas por aplicativo. Trabalha pelo computador e todo dia bate o ponto através da versão do aplicativo para funcionários. Sua função é fiscalizar e garantir o seguimento das normas sanitárias. Analisa os dados enviados pela central de entregas e produz relatórios informativos para os clientes e funcionários. Quando alguém se desvencilhava das rotinas de higienização, deve notificá-los. 
   A tarefa do dia era exatamente essa: observar os dados das interações entre as pessoas nas entregas e notificar os funcionários e clientes o mais prontamente possível. Não era permitida aproximação menor que três metros entre as pessoas. E quando o entregador levava as compras à casa dos clientes, deveria deixá-las na porta, tocar a campainha – após limpar as mãos com álcool, claro – e sair. Assim, contados cinco segundos de sua saída, os clientes podiam recolher as compras, após espirrar spray antisséptico sobre elas, e levá-las para dentro de casa. Era um ritual bastante preciso, e que servia para todas as interações entre as pessoas que não tivessem um grau aproximado e continuado de relacionamento. 
   Tereza sabia muito bem disso e, por segurança, mantinha em sua vida – até agora – quatro amigos, pois as autoridades orientavam às pessoas que se reunissem em um número máximo de seis. Por parte de sua família, como eram apenas em três, seus encontros não lhe causavam ansiedade – com exceção aos comentários impertinentes de sua mãe. 

  Chegando ao fim do dia, Tereza começou a ficar ansiosa e acelerou para terminar seu último relatório. Era sexta-feira, noite de jantar por vídeo com os amigos e iriam combinar o próximo encontro presencial entre eles! Aquele tipo de encontro próximo, com abraços e que as pessoas falam perto uma das outras, bebem e comem juntas, ouvindo música e tocando instrumentos. Faziam isso uma vez por mês, era um momento sagrado. E esse estava marcado para o dia seguinte! 
   No computador, fechou o sistema do supermercado e colocou uma música para tocar. "Já que é pra tombar, tombei... bem bem!" Levantou-se dançando e cantando com a versão jazz da sua música favorita nos últimos anos e foi à cozinha decidir o que iria preparar para seu jantar com os amigos... "bau bau bauêê!".

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