Essa é a história de uma menina que não se banhava no rio porque tinha medo de uma luz muito, muito forte que se refletia na superfície das águas. Ela tinha medo de chegar perto e ficar cega por completo ou até mesmo morrer com tamanha intensidade que aquela luz brilhava.
Um dia ela ficou olhando o rio, de longe, em cima de uma árvore, entre as folhagens, olhando o rio e sua luz intensa que refletia na superfície das águas. E ela ficou horas ali protegida nas folhas só olhando o rio e a luz, olhando, olhando. As horas foram passando e ela viu a luz diminuindo, diminuindo, ficando mais morna, mais suave. Até que de repente a luz tocou o rio e então ele todo ficou como fogo dourado e pintou o céu de laranja.
Maravilhada com a beleza mágica daquele momento, a menina não sentiu mais medo. Aquela luz não podia ser tão assustadora assim, quando as águas do rio a recebiam toda morna, calma, branda. Ela entendeu que se toda a superfície do rio tomava daquela luz, afinal, ela também poderia!
Em um instante ela começou a ter vontade de descer correndo da árvore e ir à beira do rio tocar as águas de sol morno que via, mas era já hora de ir pra casa e se reunir com a família. Desceu a árvore e foi pensando enquanto ouvia o chamado de sua mãe e sua avó. Olhando para as estrelas que começavam a aparecer, foi pensando no novo calor da luz que ela conhecera.
De volta à casa ela perguntou à avó por que o rio ficava tão dourado quando o sol mergulhava nele. E a avó lhe respondeu que essa era a cauda dele que a gente podia ver quando ele estava indo embora para casa. Porque depois de ficar o dia inteiro brilhando e ardendo, ele também quer descansar, voltar para casa e abraçar a família dele. “É um presente então, minha avó!” diz a menina. A avó ri “É, minha filha, o presente é ele inteiro que se mostra para nós”. A noite se seguiu de reencontros e partilhas e cantorias à beira do fogo e, em determinada hora, a menina adormeceu no colo da avó ouvindo suas histórias sobre o sol e o rio.
Quando acordou em sua rede, com o sol nascendo laranja, lhe deu bom dia em alegria e admiração à nudez com que ele se mostrava também quando chegava. Foi correndo ao rio para vê-lo chegando, e quando aquela sua luz foi ficando forte e ardente, viu-a refletida nas águas do rio, mas não a olhou diretamente. Olhou à beira do rio, claro e transparente, e viu não só seu fundo, mas também a si mesma refletida nas águas. Sorriu e mergulhou.
Rio de Janeiro, agosto de 2018.
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