domingo, 3 de abril de 2016

Conchinha




Se conheceram e dormiram de conchinha. Barriga na costa, cheirinho na nuca...

E foram dormindo e acordando os dias seguintes nessa alegria deles. Do aconchego de um abraço, da faísca das peles que se tocam, do convite de um beijo.

E foram sendo sem perceber, ocupados em sentir, nessa mesma alegria deles. Sentir o outro e sentir-se no outro.

Até que preferiram pensar a sentir. Dizer a ser. E a ressaca tomou a praia deles. A tormenta dominou o oceano deles. E naufragaram.

Mas foram conchinha. Por baixo do agito das ondas, foram conchinha.


Para Clarice Lispector

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